Mudança? Não no quintal da América!
Publicado por Zé Otavio em Maio 5, 2008
As posições reacionárias de Barack Obama para a América Latinaº
Chris Carlson*
Tradução: José Otavio D’Acosta Passos
º publicado originalmente (em inglês) em ZNet no dia 23 de Março de 2008
Enquanto os progressistas dos Estados Unidos estão surfando uma onda de euforia com a esperança Democráta Barack Obama e sua promessa de mudança, as pessoas na América Latina tem muito menos razão para gozá-la. Na verdade, considerando alguns comentários recentes, a América Latina pode esperar inclusive mais agressividade política de Barack Obama do que viu durante o governo Bush.
A América Latina tem sido considerada há muito, como o quintal tanto pelos governantes dos EUA, como pelos críticos do imperialismo americano. Movimentos nacionalistas e revolucionários na América Latina expressam seu desejo de fugir dessa condição, e adquirir um desenvolvimento económico soberano.
No entanto, os governantes dos EUA, da Doutrina Monroe à Truman, sempre viram a América Latina como uma região estratégica, com vastos recursos naturais e lucrativos mercados, que devem permanecer dentro da influência norte-americana, independentemente da vontade dos povos.
Barack Obama aparentemente tem as mesmas idéias. Algumas semanas atrás, ele expressou-as, chegando inclusive a usar o rótulo “quintal” (“backyard”).
“Nós temos sido tão obcecados com o Iraque e com o Oriente Médio, que temos negligenciado a América Latina, no nosso próprio quintal” disse ele em um discurso de campanha em Alexandria, Estado Virginia. [1]
Ele tem razão. O enfoque no Oriente Médio dado pelo governo Bush, deu algum espaço para que a América Latina respirasse da subversão e do intervencionismo dos EUA, tão comuns ao largo de sua história. No meio tempo, líderes da esquerda chegaram ao poder em toda a região, como nunca antes na série de revoluções democráticas denominadas de “Maré Rosa” (“Pink Tide” [NT1]).
Muitas pessoas de esquerda, tem visto esses acontecimentos como um gigantesco florescer de democracia popular e participação das massas, e uma clara ruptura com as democracias elitistas do passado. As massas têm sido relativamente livres para escolher esquerdistas e líderes nacionalistas nas eleições democráticas, sem que eles fossem derrubados pela intervenção dos EUA, com algumas exceções. [2]
Mas Barack Obama não vê dessa forma. Na realidade, ele aparentemente interpreta esses acontecimentos como problemas, que foram negligenciados pelo governo Bush, como alertou recentemente:
“A China tem enviado diplomatas, especialistas em desenvolvimento económico e fazendo conexões por toda América Latina. Eles tem garantido acordos comerciais e contratos. E nós ignoramos a América Latina para nosso próprio risco. [3]
Em outras palavras, a negligência dos EUA no seu quintal, permitiu que a América Latina tivesse liberdade de comercializar com outros países, como a China; seguramente uma ameaça aos interesses das corporações norte-americanas. Na verdade, a guinada à esquerda da América Latina ameaça os interesses económicos dos EUA à medida em que os países buscam tomar o controle de seus recursos naturais, diversificar suas economias, e romper com a dependencia de importações dos Estados Unidos.
É, óbviamente, direito de qualquer nação soberana fazer essas coisas, se assim o desejar, e os líderes da América Latina, como Hugo Chávez da Venezuela e Rafael Correa do Equador, argumentariam que essas medidas são absolutamente essenciais para o desenvolvimento da região.
Mas Barack Obama vê isso como um problema; como resultado do abandono dos EUA na região e aparentemente esperando reverter essas mudanças democráticas na América Latina. Durante a participação em um debate recente, em Austin, no Estado do Texas, ele insinuou que o descuido dos EUA na região, permitiu que líderes como Hugo Chávez, da Venezuela, tivessem liberdade demais.
“Nossa atenção na América Latina foi desviada… Não é nenhuma surpresa, então, que vejamos pessoas como Hugo Chávez e países como a China, ocuparem o espaço, porque nós temos sido negligentes com isso” disse ele. [4]
E Chávez, parece ser um problema particular para Obama; a ponto de levá-lo a incluir a Venezuela na lista de Estados bandidos (“rogue states”), junto com Cuba, Irã e Síria, e expressar sua oposição ao presidente venezuelano em um discurso recente:
“Eu geralmente não concordo com as políticas de Chávez e como ele têm tratado seu povo” disse. [5]
Aparentemente não importa se o povo venezuelano concorda com as políticas de Chávez, e tem mostrado em repetidas ocasiões apoio à ele em eleições democráticas e abertas. Obama evidentemente vê a Venezuela como um “Estado bandido” não porque é uma ameaça à segurança, mas porque “[Chávez] têm usado as receitas petroleiras para trazer problemas aos EUA” como disse recentemente. [6]
Realmente, muitos países latino-americanos têm ficado “loucos” com a idéia de que podem usar seus recursos naturais como queiram, sem precisar respeitar os interesses dos Estados Unidos. A Venezuela de Chávez e a Bolívia de Evo Morales são alguns dos quais nacionalizaram seus recursos naturais, e começaram a usar sua receita como lhes parece correto.
Em especial Hugo Chávez, tem usado as receitas petroleiras da Venezuela para financiar projetos conjuntos com outros países e para incrementar o comércio regional entre os países da América Latina. Suas políticas têm o objetivo de diversificar a economia venezuelana, comprometendo a dependencia da região com os EUA. [7]
Se isso é ao que Obama se refere como trazer problema (“stirring up trouble”), ele tem razão de que essas políticas não atendem aos interesses das corporações norte-americanas, que buscam dominar os mercados e recursos dos países da América Latina. No entanto, os povos da América Latina não deveriam decidir como usar as receitas de seus recursos naturais? Ou essa é uma decisão que deve vir de Washington?
Tudo isso nos faz pensar como Barack Obama pode agir para a América Latina se ele for eleito em Novembro. O senador já disse que está disposto a se reunir com os adversários dos EUA, incluíndo Raul Castro de Cuba e Hugo Chávez da Venezuela, no entanto ele não disse nada sobre se vai ou não continuar a antiga política dos Estados Unidos de subverter governos de esquerda na região.
Realmente, se os comentários de sua assessora para política internacional, Samantha Power, são algum indicativo, não é uma imagem muito promissora. Samantha Power, uma grande defensora dos bombardeios dos EUA na Sérvia, em 1999, se referiu às políticas internas de Chávez como “muito problemáticas” em uma entrevista recente, e sugeriu que Obama estaria procurando mudanças nas políticas venezuelanas.
“Se… Chávez continua a desviar-se do que Obama considera como normas internacionais para a política interna, então isso é um problema”, disse Power. [8]
Power foi além e disse que o governo Obama enfocaria no “que Chávez faz de errado do ponto de vista do povo venezuelano.” Isso pede uma pergunta óbvia: não é tarefa de o povo venezuelano decidir isso?
No entanto, apesar de Obama promover a “mudança” nos Estados Unidos, ele aparentemente não apoia mudanças progressistas no quintal da América. Por mais de um século, a subversão e intervencionismo dos EUA na região tem sido constantes, tanto por parte de governos Democratas como Republicanos, derrubando ou neutralizando toda e qualquer ameaça ao domínio dos EUA. Assim, apesar de ele ser o mais progressista dos candidatos presidenciais, parece muito pouco provável que ele aceite os esforços da América Latina para liberar-se.
Ao contrário, parece que a maior preocupação de Obama é o declínio da influência dos Estados Unidos na região. Ao contrário do governo Bush, que esteve ocupado com o Oriente Médio, Barack Obama parece convencido a virar o olhar (“gaze” NT2) de Washington para o seu “quintal” do sul.
Ele vem promovendo a criação de uma “nova aliança pelo progresso”, em alusão à política original de John F. Kennedy para frustrar revoluções sociais na América Latina e salvaguardar os interesses e domínio dos EUA. Apesar de esporádicamente criticar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, NAFTA, (o que recentemente se decubriu que era mera retórica política [9]), Obama também sugeriu que haverá pouca mudança nas ações de Washington pelo livre-comércio, uma doutrina que tem sido amplamente rejeitada pela maioria dos países latino-americanos.
Tudo isso poderia trazer sérias consequências para a expansão de movimentos de esquerda na América Latina, e podería significar um aumento nas ações abertas e ocultas para minar seus governos, inclusive com o aumento do apoio e transferencias financeiras, com respeito ao governo Bush, a grupos de direita alinhados com os EUA e outras forças contra-revolucionárias.
Obama também fez planos para aumentar as forças armadas dos EUA, o que parece significar que ele não teria aversão a ações militares. A assessora principal de Obama para Política Externa, Samantha Power certamente não teria, como ela manifestou em uma entrevista recente:
“Existem desafio à segurança nacional e humanitários lá fora, que exigirão a atenção da América, e às vezes isso exigirá atenção militar” disse ela. [10]
Se os países da América Latina podem esperar algo da presidencia de Barack Obama, é mais atenção de Washington. Se a história serve como indicador, isso não será favorável para a recente onde de revoluções democráticas na região.
* Chris Carlson, 27, é um jornalista e ativista político norte-americano. Escreve para Venezuelanalysis.com e Socialistworker.org.
1. Durante discurso de campanha em Alexandria, Virginia, 10 de Fevereiro, 2008: http://www.youtube.com/watch?v=gopuefFpcx0 (inglês)
2. O ex-presidente do Haiti, Jean Bertrand Aristide e o presidente venezuelano Hugo Chávez são duas raras exceções. O primeiro foi derrubado pelas forças armadas dos EUA em 2004 e o segundo foi temporáriamente deposto em um golpe apoiado pelos EUA em 2002.
3. Durante discurso de campanha em Alexandria, Virginia, 10 de Fevereiro 2008: http://www.youtube.com/watch?v=gopuefFpcx0
4. Do Debate Democrático da CNN em Austin, Texas, 21 de Fevereiro, 2008: http://www.cnn.com/2008/POLITICS/02/21/debate.transcript/
5. Durante discurso de campanha em Alexandria, Virginia, 10 de Fevereiro, 2008: http://www.youtube.com/watch?v=gopuefFpcx0 (inglês)
6. Ibid.
7. Ver o artigo de Steve Elner, “Using Oil Diplomacy to Sever Venezuela’s Dependence,” 03 de Outubro de 2007, http://www.venezuelanalysis.com/analysis/2677
8. Durante uma entrevista em DemocracyNow! em 22 de Fevereiro, 2008: http://www.democracynow.org/2008/2/25/barack_obamas_senior_foreign_policy_adviser
9. Notícia: http://www.startribune.com/politics/national/president/16200437.html
10. Durante uma entrevista em DemocracyNow! em 22 de Fevereiro, 2008: http://www.democracynow.org/2008/2/25/barack_obamas_senior_foreign_policy_adviser
NT1 (nota do tradutor): termo usado nos EUA para descrever a recente onda de eleições de políticos nacionalistas e de esquerda na América Latina.
NT2 (nota do tradutor): olhar fixamente
Esta entrada foi publicada em Maio 5, 2008 às 18:26 e é arquivado em Mundo. Tagged: Barack Obama, Eleições, EUA, Hugo Chávez, Império, Mundo, Política Externa. Você pode seguir qualquer respostas para esta entrada através de RSS 2.0 feed. Você pode deixe uma resposta, ou trackback do seu próprio site.
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