Barack Obama perderá eleição para presidente, parte 2
Publicado por Zé Otavio em Junho 12, 2008
Em entrevista publicada no dia 09 de junho de 2008 na Folha de S. Paulo, o sociólogo e teórico da Universidade de Yale, Immanuel Wallerstein empolgado com a candidatura de Obama, declara acreditar em sua vitória fácil no fim-de-ano. Se nesse ponto não concordamos, estamos na mesma linha do que deve acontecer caso Barack Obama seja de fato eleito: “Minha impressão é que a eleição de Obama criará um espaço para ação popular, mas ele não será o ator dessas mudanças, apenas responderá à pressão por elas.”. Se Lula neutralizou os movimentos sociais no Brasil com sua esperança de mudança, acho possível que Obama os desperte de seu sono esplêndido nos EUA. Em um texto futuro poderemos desenvolver melhor essa última questão.
Reafirmando minha posição de que não acredito na vitória de Obama no fim do ano, reforço com dois argumentos que explorei pouco no texto anterior:
1) As eleições nos EUA são indiretas, as pessoas não votam no candidato, mas em representantes (de forma simplificada, dos Partidos Democrata, Republicano ou independentes). Quem consegue mais representantes, “leva” todo o Estado, e cada unidade federativa já tem um número determinado de representantes que “votarão” no presidente. Em 2008, a Flórida, por exemplo, que é um Estado determinante nas eleições para presidente, por não ser “vitória segura” de nenhum partido (“Swing State”), “vale” 27 representantes, o “pequeño” Estado de Utah (que sempre vota nos republicanos) conta com 5 representantes, a California (quase sempre democrata) “vale” 55.
O que isso significa? Isso significa que Obama pode ter mais votos que McCain no total do país e ainda assim perder as eleições se não conseguir garantir a vitória nos “Swing States”, como aconteceu na eleição para presidente em 2000. Nessa ocasião, Bush ganhou do democrata Al Gore, apesar de ter menos votos populares no país, (47,87% contra 48,38%) basicamente por ganhar na Flórida de maneira controversa (com uma margem de apenas 537 dos quase 6 milhões de votos totais!!!).
2) A forma como Bush ganhou na Flórida e levou os 25 votos do Estado (em 2000 a Flórida “valia” 25 e não 27 como valerá esse ano) mostra outra dificuldade que Obama terá: o jogo sujo republicano. Existem inúmeros relatos de pessoas que foram impedidas de votar na Flórida por estarem supostamente em uma lista de ex-presidiários (que lá não votam, o chamado “disfranchisement”). A partir dessa lista, que depois se comprovou que eram homônimos que nem eram da Flórida, mas de outros Estados, várias pessoas, em sua imensa maioria negras, foram simplesmente impedidas na boca da urna de votar (e os negros tradicionalmente votam nos democratas). Dessa forma, e pelas estimativas mais conservadoras, Al Gore perdeu uma eleição que na verdade ganhou não só no voto popular, como também na preferência geral nos Estados, o que não se refletiu nas urnas pelo menos da Flórida por uma suja manobra do então governador do Estado, Jeb Bush (sim, irmão do George).
Para esse ano, os republicanos já inventaram das suas: nessas eleições, ao contrário do que acontece desde sempre nos EUA, as pessoas (de vários Estados) terão que apresentar uma documentação válida e com foto antes de votar.
Cabe uma explicação anterior: tradicionalmente, os Estados nos EUA têm independencia para decidirem como farão suas eleições e até para definir quem está impossibilitado de votar. Por exemplo, em 13 Estados norte-americanos, pessoas condenadas pela justiça são impedidas de votar enquanto estejam na prisão. No Estado de Delaware, vale a mesma regra, mas o “disfranchisement” se extende até 5 anos depois que a pena terminou. Em outros 10 Estados, pessoas condenadas por felonía (“felony”, crime considerado grave – o que também muda de Estado para Estado) são proibidas para sempre de votar.
Além disso, outra tradição nos EUA é que para votar, as pessoas não têm que apresentar nenhum documento oficial, podendo votar até com um cartão da biblioteca. O que os “mesários” fazem é verificar a assinatura e se não está na lista de pessoas impedidas de votar. Pra além do mérito da questão e de porque as eleições lá eram assim até agora, o fato é que as regras mudarão nesse ano, justo quando um possível presidente negro está tocando à porta da Casa Branca. Coincidência?
O Supremo Tribunal do EUA (indicado em sua imensa maioria pelo George) aprovou um pedido do Estado de Indiana para que a documentação oficial com foto seja obrigatória nas eleições para presidente deste ano, medida que ainda pode ser aprovada por vários outros Estados críticos nas eleições.
E quem não possui documento oficial com foto nos EUA? Além dos imigrantes ilegais (que não votam de qualquer jeito), não possuem esse tipo de documento, negros e pobres. E em quem costumam votar (quando votam) essas pessoas? Em geral no partido democrata, e nessas eleições certamente votariam em Obama.
Ou seja, que de uma tacada, Obama pode ter perdido parte importantíssima do eleitorado que em geral não vota (faltou dizer que lá não é obrigatório…), mas que nessas eleições prometia comparecer em massa às urnas. É importante fazer uma ressalva: o impacto concreto dessa medida ainda é incerto, não existem dados precisos de quantas pessoas serão afetadas por isso, quantas delas iriam votar e serão impedidas e se isso realmente fará alguma diferença no resultado final.
Para mim o que fica é a capacidade dessa extraordinária máquina republicana em manipular o jogo e sua completa falta de escrúpulos. Onde está o povo americano saindo às ruas? Alô! Acordem!
P.S.: Segundo estimativa da CNN, de acordo à provável vitória dos candidatos em “Estados seguros” (“safe states”), McCain teria hoje 194 votos e Obama 190, estando 154 ainda em disputa (são necessários 270 para ganhar). Na preferência popular Obama aparece com 47% e McCain com 43% (mas isso, como explicamos no texto, não vale o pote de ouro).
Esta entrada foi publicada em Junho 12, 2008 às 10:37 e é arquivado em Mundo. Tagged: Barack Obama, Eleições, Eleições nos EUA, Eleições para presidente, EUA, Immanuel Wallerstein, John McCain, Política. Você pode seguir qualquer respostas para esta entrada através de RSS 2.0 feed. Você pode deixe uma resposta, ou trackback do seu próprio site.

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