Foca em Washington
Publicado por Zé Otavio em Junho 17, 2008
Em dezembro de 2001 eu estava terminando minha estadia na cidade de Guadalajara, México, onde passei 6 meses fazendo intercâmbio. Uma prima mexicana (filha da minha madrinha) estava nesse momento morando em Washington D.C., nos EUA e teria bebê por essa época. Decidi acompanhar minha madrinha na viagem a Washington, onde passariamos o natal e o ano-novo, antes de voltar definitivamente para o Brasil.
Um dos locais que mais me chamou a atenção foi o zoológico de Washington (fundado em 1889 e mantido pelo “Smithsonian Institution”). O zoológico fica em uma zona residencial muito tranquila, com casas vitorianas e ruas pequenas, e é usado por corredores e esportistas durante o dia. O parque é muito bonito, arborizado, bem conservado e organizado, e a quantidade de espécimes é bastante grande.
De todos os animais que vi no zoológico, os que mais me lembro são o panda, os flamingos e uma foca, sim uma foca.
A foca estava localizada em uma espécie de tanque e aquário, entre duas ruas, justo na esquina da bifurcação. Dessa forma você poderia seguir o caminho (rua) da esquerda, que subia em direção ao felinos, e de onde veria a foca de cima, podendo observar como ela entrava e saia da água, ou seguir o caminho da direita, tendo uma visão semi-submersa do tanque, e observando de um ângulo privilegiado como ela entra na água e como nada.
Quando me aproximei pela parte de baixo, a foca estava bastante agitada e fazia um movimento um tanto curioso: da beirada, ela se jogava na água em direção ao vidro (como um nadador de competição), batia no vidro com as patas, e voltava de costas para a beirada, hora saindo da água e repetindo todo o movimento, hora voltando ao vidro sem sair da água (mas repetindo a batida e virada).
Colei meu rosto no vidro para observá-la de perto e ela continuou com a movimentação, sem se preocupar que eu estava aí colado no aquário. Dessa forma, eu podia até sentir a trepidação quando ela batia no vidro, justo na altura do meu rosto, e repetia todo o movimento. E ela continuava fazendo todo o ciclo (ou metade dele, mas sempre batendo no vidro e voltando), nadando para longe e voltando na minha direção, batia no vidro e repetia tudo.
Um funcionário do zoológico se aproximou e percebeu minha curiosidade com a foca (e que eu não era dali) e puxou conversa comigo. Me explicou primeiro que animal era e acho que deve ter detalhado o habitat, o gênero e outras coisas que realmente não lembro. Mas lembro bem quando perguntei por que ela fazia esse movimento e lembro melhor ainda a resposta dele: alguns animais, quando são colocados em espaços fechados, tendem a fazer movimentos repetitivos. Que eu me lembre ele não sabia a explicação exata do porquê (se é que existe). Mas ele também me mostrou uma fonte de água, colocada na parte seca do tanque, que tinha a finalidade de distraí-la e tentar quebrar o ciclo de movimentos repetitivos, que por si pode causar lesões à pobre foca. O amável funcionário parecia um pouco triste, e confessou que tinham feito várias tentativas, mas que nenhuma havia dado resultado até agora, e que a foca continuava com seus movimentos repetitivos.
Toda essa explicação ficou guardada na minha memória, e cada vez que vou a um zoológico e vejo animais fazendo movimentos repetitivos lembro dela. A última vez aconteceu no zoológico de Caracas (em 2007), onde vi um leopardo em uma pequena área de 10×10m indo de um lado para o outro. Em 2006, no zoológico de Mérida, também lembrei da explicação ao ver um leão, em uma pequena jaula de 3×3m, movendo a cabeça para cima e para baixo, sem parar (como se dissesse “sim”).
O que eu não imaginava, é que só ontem, (e sem nenhuma razão especial) quase 7 anos depois da explicação, eu entenderia claramente o quanto nos parecemos a esses animais presos. Como humanos (e como animais) estamos limitados no que podemos fazer e no que podemos ser, como se estivessemos presos em um tanque de zoológico e por isso nos limitamos a realizar ações repetitivas, como a foca, indo, batendo no vidro e voltando.
Precisamos soltar nossa humanidade para as mais amplas possibilidades que a natureza abriu, senão continuaremos fazendo movimentos repetitivos que nos transformam em animais enjaulados, focas fazendo acrobracias em um circo, apresentação após apresentação, seguindo mecanicamente as instruções de um domador que não existe, senão em nós mesmos. Uma pergunta ainda me incomoda: Quem são os donos do zoológico e do circo?
É para isso que temos que propor outra sociedade, outra vida e outra política.

Tuya disse
Eu sempre evitar a ir para o jardim zoológico. Estou mal e eu quero contribuir economicamente para a sua manutenção.
Muitas pessoas consideram-me louco para o amor que tenho por animais, [são vegetarianos], mas não me dar a sua importância. Os jardins zoológicos são cruéis, estes animais são privados de suas vidas para o capricho humano …
Os homens são ações repetitivas Talvez porque também eles estão em uma gaiola. Embora não seja uma gaiola material, feita de ferro ou de vidro … A diferença reside no facto de que os animais sejam desarmados antes de sua prisão, os homens podem ribbellarsi a sua sociedade.
Espero ter entendido o significado de artigo.
zecopol disse
Muito bom o artigo Zé,
só não sei se a pergunta no final é a ideal. Pra mim mesmo os donos do zoológoco estão presos no vidro.
Concordo com você que só uma outra civilização mais libertária pode ajudar a gente a sair dos aquários da vida. Por enquanto vamos tentando sair aos poucos.
Digno de publicação no outra política, mas com outro título eu acho, tipo, “focas e seres humanos no zoológico”, ou “lá vem a foca! Enjaulada!” X
Zé Otavio disse
É você tem razão.. a pergunta ficou forçada aí no texto, coloquei mais para que não ficasse parecendo um texto de auto-ajuda, sei lá, achei que o final estava neutro demais, senti a necessidade de politizar um pouco e gerar polêmica, mas não pensei bem como fazer isso de um jeito melhor e taquei uma pergunta talvez fora de lugar.
zecopol disse
Mas ok cara, a questão é de fundo mesmo, não é auto ajuda não! Tá claro que é um ponto amis abstrato e social.
Zé Veibil disse
A primeira parte do seu texto me fez lembrar, por oposição, da foca (ou algum parente dela) que vimos aquela vez em Trindade.
Quanto ao ponto principal: será que o próprio fato de viver em sociedade não pressupõe uma jaula para nós? Talvez o que consigamos com uma nova sociedade seja apenas o equivalente a uma jaula maior.
Mas deve haver um tamanho de jaula que não cause mais esse comportamento repetitivo. Qual é? Quanto é para uma tartaruga e quanto é para uma foca ou um leão? E para nós?
No limite físico, a jaula é a Terra (por enquanto, pelo menos…)
No social? Não tenho a menor idéia. Mas muitos dias dá a impressão que estamos no equivalente à jaula 3×3m.